quinta-feira, 24 de abril de 2014


Reflexões sobre um mês de “Via Expresso”

Terminado que está um mês de morada nas instalações do Hotel do Pólo Industrial da Mulemba da IMUVIP, com deslocações diárias para Benfica, pela “Via Expresso”, é hora de fazer um curto balanço.
Para começar, o chavão “só visto e vivido… contado, ninguém acredita e não tem piada nenhuma”… mesmo assim vou tentar…
Em média são 72 Km para cada lado feitos em cerca de 1,20h… nada de especial, não fossem as condições da dita “Via”, que transforma cada uma das viagens em autênticos suplícios… para dar uma pálida ideia, experimente-se fazer Lisboa - Coimbra, não pelas IC, mas pelas secundárias, sem paragens e em hora de ponta, num “chanato” e ainda se fica muito longe da sensação e do cansaço final… e acho que não estou a exagerar mesmo nada.
Comecemos pela Via… recente, com os malfadados “retornos”, mas com duas faixas oficiais para cada lado, candeeiros de iluminação, rails de protecção lateral e de separador central com vala, áreas de serviço, posto policial, e patrulhas motorizadas e apeadas… enfim um luxo… ou será que não é bem assim?
“Recente”? – Sim, e com crateras a começar a aparecer, aluimentos de terra quando chove, e os lençóis de água e poças de lama que não contam, inertes caídos por todo lado dos camiões, acessos de qualquer maneira, quase todos não sinalizados – maravilha.
 “Duas Faixas”? - Às vezes!… Junto aos retornos, saídas, entradas, paragens de táxi (SIM! paragens de táxi em plena via expresso sem marcação, resguardo ou pré aviso… é onde calha…), veículos avariados na faixa, á entrada e saída da dita cuja, e de um modo geral porque sim, mas que também… podem ser três, quatro, ou o que der… não sendo novidade para esta terra, tratando-se de uma “via expresso”, assume uma proporção engraçada.
“Candeeiros de iluminação”? – Ainda sobrevivem muitos… pena é que maioritariamente estão apagados, ou torcidos, ou nem estão lá simplesmente porque foram fazer uma necessidade menor e já voltam… além disso são muito bons para apoio á fauna que cruza esta savana…
“Rails de protecção”? – Maravilhosa invenção! São fantásticos para amassar e deixar retorcidos e virados para dentro da faixa, ou para fora, ou ainda para as “gazelas” saltarem, e excelente material para fazer “triângulos” de pré sinalização e avaria… muito úteis… e aposto que já salvaram inúmeras vidas (não estou a brincar… apesar de tudo, literalmente, já salvaram certamente centenas!). Outras utilidades que têm e eu desconhecia, é que servem para abrir passagem para o separador central, que vala é apelido, e assim termos mais uma faixa suplementar, ou estacionamento, ou até um retorno mesmo onde faz falta… Espectáculo!
“Áreas de Serviço”? – Finalmente um positivo. Todas novas e a funcionar dentro do expectável para o País. Excelente surpresa, não fosse o serviço ser o habitual lento e confuso, pena é os acessos quase não terem faixas de desaceleração ou aceleração…. Mas isso também não importa…99% nem faz ideia do que isso é ou para que serve…. Modernices.
“Posto Policial”? – Claro que está lá e funciona dentro do possível. Apesar de mais se parecer com a guarde de um depósito de sucata, e central de distribuição de fardas, merece uma nota muito positiva, pois naquelas condições só mesmo por necessidade ou amor á profissão e á farda se consegue manter a funcionar.
“Patrulhas motorizadas e apeadas”? – Todas nos seus postos, e só de dia. A fazer o quê? Isso é que já é outra conversa. Regular o trânsito, fazer-se obedecer, prevenir contravenções, e outras coisas do género… é que é mais complicado… mas vai-se trabalhando para a água açucarada e carbo-gaseificada, principalmente se através do pára-brisas se vislumbra algo claro ou feminino ou aparentemente apetecível… nunca falha.
Mas isto de dizer mal, pode ser um vício… também onde já se viu uma via dita expresso para andar bem, com “passeadeiras” (felizmente só na zona de Benfica), paragens de táxi onde calha e camiões a circular pela esquerda em marcha lenta, ultrapassagens por onde há espaço (confirma-se o postulado científico da natureza ter horror ao vazio - e estes condutores são realmente uma força da natureza).
E por tocar nas passeadeiras (sim que o pessoal aqui não atravessa…. Passeia). Como se não bastasse o stress da condução caótica, numa via complicada, ainda há o trauma da fauna que por lá circula e cruza. Se por um lado há que louvar o espírito e coragem dos que são forçados a cruzar esta via para o outro lado (esqueceram-se de projectar passagens superiores para peões…) para conseguir um transporte ou simplesmente chegar a casa, numa estrada onde ninguém se respeita e circula com velocidades elevadas, e manobras que não lembra a ninguém, por outro lado surgem dois novos espécimes.
Os “gatos” já eram velhos conhecidos da estrada da Samba, aqui também os há. Quem não conhece a forma dos gatos atravessarem a rua? Ficam abrigados atrás de um qualquer obstáculo na berma da via (caixote, viatura, poste, o que estiver a jeito…) e quando os faróis da viatura a circular (normalmente a cima de 50 Km/h) iluminam a faixa á sua frente desatam a correr para o outro lado… muitas vezes não chegam lá…
Agora descobri os “Gazelas”. Graciosos, juntam-se em pares, grupos, bandos, manadas… observam o movimento, e num ápice de coragem disparam para o outro lado só parando contra o rail, batendo ou pulando, e respirando ofegantes no separador central, concentrando-se para mais uma etapa. Gabo-lhes a coragem e determinação, mas não deixam de me surpreender sempre e assustar com a imprevisibilidade.
Já os Gnus (ou Boi Cavalo) deixam-me mais preocupado e alerta… aparentemente actuam como as Gazelas… mas a meio da faixam hesitam, param, olham para os veículos que se aproximam velozes e decidem continuar em passeio… alguns têm “azar”…mas a culpa é sempre da macumba, feitiço, mau-olhado, sempre do outro… nunca destes infelizes… e o que me preocupa, é que ao contrário do que se passa no “Serengueti” ou no “Massai-Mara” (Viva o National Geographic!), estes não se diferenciam a olho nu… nem de lupa… não está fácil!
Para me ajudar a estudar esta via e também para ter um pretexto para estar bastante atento nestas primeiras viagens elaborei uma pequena estatística, que me deu dados curiosos…
Com uma média de cerca de 1,20h por cada percurso totalizei quase 70h de viagens num mês, em mais de 3.800 km, tendo a viagem mais demorada durado quase 2h. Mas que me permitiu concluir que a saída de “casa” tem de ser entre as 06,00h e as 06,15h, sendo que depois desta hora quaisquer 5 minutos extra podem significar entre meia hora a uma hora extra, só para chegar a Benfica, que ir para a “Cidade”…. Nem pensar! Já o regresso tem de ser feito entre as 16,30h e as 16,45h. Chegar ao Cacuaco depois do pôr-do-sol é roleta russa com os gatos e demais fauna, multiplicando o stress por muitos dígitos.
Considerando a “óptima” qualidade de veículos a circular, tentei esquecer que há ciclomotores, motos, motociclos e camiões a circular e só me concentrei nos chamados ligeiros. Custa confirmar a já sabida degradação do parque automóvel em circulação, mas isso são contas de outro rosário, mesmo assim mais uma vez esqueci veículos esgalhados com para brisas partidos, sem espelhos, amassados, etc., etc., e fiquei-me somente pelos “Fumarolas” (e mesmo assim os que iam a subir, ou em manobra não contaram). Sendo considerado “fumarola”, aquele que em deslocação normal queima pior que a “chama da Sacor”, levei em média com 6 por viagem para um total de cerca de 300 no período….E a maior parte dos dias tive de andar de janelas abertas por não ter ar condicionado no carro…. Os Pneumologistas agradecem…
Claro que as condições do parque auto e das vias em muito contribuíram para os que ficam na berma, ou mesmo na via. Mais uma vez os que não estavam assinalados com os famosos “triângulos” (triângulo, pneu, monte de pedras, ramos de árvore, bidão, pedaço de carro ou rail, etc.) e que depois lá fica quando o veiculo se vai embora…), com a capota aberta ou em mudança de pneu não contaram (podiam simplesmente estar estacionados, ou “a mudar a água às azeitonas”). Ainda assim na berma ficaram mais de 400 avariados, com média de 8 por viagem, e para ajudar ao “slalom” em média havia 2 avariados na via devidamente “assinalados” para os quase 50 do mês… Loucura instalada…
Nem por isso, que esse capítulo cabe aos acidentes, (despistes, colisões, capotamentos…) em média 1 por dia já na berma e outro na via…totalizando 32 na berma e 24 em plena faixa de rodagem… e isto só nas faixas da direcção em que circulava, que o que se passava na outra direcção era mera curiosidade…
Por fim a contagem mais mórbida destas viagens. Mais de 40 animais atropelados, em média quase 2 por viagem… maioritariamente cães… sem comentário.
Para concluir um mês de observações e á margem das duas pedradas que tenho nos vidros, de ter levado com uma peça que se soltou do camião á minha frente, de ter presenciado 4 atropelamentos, um dos quais mortal, 7 acidentes graves na outra faixa, contornar um pneu mesmo no meio da via, todo o cansaço e stress é de menor importância… para quem não tem de o fazer diariamente.
Que Deus nos ajude e guarde!

Mulemba, 23 de Abril de 2014

1 comentário:

  1. Amigo - isso é o fim do mundo, bem aplicada a expressão "que Deus nos guarde".
    Fico triste, que tenhas que enfrentar diariamente tamanho pesadelo - é um stress enorme, que dá cabo da cabeça até ao tipo mais "paxá".
    Faz-me pensar também na construção desenfreada, sem estudo de impacto ambiental, tanto para o homem como para os animais. É muito mau - cada vez mais invadimos espaço que não deveria nunca ser nosso sem medir as consequências do acto.
    Tenho muita pena que tenhas que viver com tantas dificuldades.
    Beijinhos, que o teu regresso seja para breve.

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