Reflexões sobre um mês
de “Via Expresso”
Terminado
que está um mês de morada nas instalações do Hotel do Pólo Industrial da
Mulemba da IMUVIP, com deslocações diárias para Benfica, pela “Via Expresso”, é
hora de fazer um curto balanço.
Para
começar, o chavão “só visto e vivido… contado, ninguém acredita e não tem piada
nenhuma”… mesmo assim vou tentar…
Em
média são 72 Km para cada lado feitos em cerca de 1,20h… nada de especial, não
fossem as condições da dita “Via”, que transforma cada uma das viagens em
autênticos suplícios… para dar uma pálida ideia, experimente-se fazer Lisboa - Coimbra,
não pelas IC, mas pelas secundárias, sem paragens e em hora de ponta, num
“chanato” e ainda se fica muito longe da sensação e do cansaço final… e acho
que não estou a exagerar mesmo nada.
Comecemos
pela Via… recente, com os malfadados “retornos”, mas com duas faixas oficiais
para cada lado, candeeiros de iluminação, rails de protecção lateral e de
separador central com vala, áreas de serviço, posto policial, e patrulhas motorizadas
e apeadas… enfim um luxo… ou será que não é bem assim?
“Recente”?
– Sim, e com crateras a começar a aparecer, aluimentos de terra quando chove, e
os lençóis de água e poças de lama que não contam, inertes caídos por todo lado
dos camiões, acessos de qualquer maneira, quase todos não sinalizados –
maravilha.
“Duas Faixas”? - Às vezes!… Junto aos
retornos, saídas, entradas, paragens de táxi (SIM! paragens de táxi em plena
via expresso sem marcação, resguardo ou pré aviso… é onde calha…), veículos
avariados na faixa, á entrada e saída da dita cuja, e de um modo geral porque
sim, mas que também… podem ser três, quatro, ou o que der… não sendo novidade
para esta terra, tratando-se de uma “via expresso”, assume uma proporção
engraçada.
“Candeeiros
de iluminação”? – Ainda sobrevivem muitos… pena é que maioritariamente estão
apagados, ou torcidos, ou nem estão lá simplesmente porque foram fazer uma
necessidade menor e já voltam… além disso são muito bons para apoio á fauna que
cruza esta savana…
“Rails
de protecção”? – Maravilhosa invenção! São fantásticos para amassar e deixar
retorcidos e virados para dentro da faixa, ou para fora, ou ainda para as
“gazelas” saltarem, e excelente material para fazer “triângulos” de pré
sinalização e avaria… muito úteis… e aposto que já salvaram inúmeras vidas (não
estou a brincar… apesar de tudo, literalmente, já salvaram certamente
centenas!). Outras utilidades que têm e eu desconhecia, é que servem para abrir
passagem para o separador central, que vala é apelido, e assim termos mais uma
faixa suplementar, ou estacionamento, ou até um retorno mesmo onde faz falta… Espectáculo!
“Áreas
de Serviço”? – Finalmente um positivo. Todas novas e a funcionar dentro do
expectável para o País. Excelente surpresa, não fosse o serviço ser o habitual
lento e confuso, pena é os acessos quase não terem faixas de desaceleração ou
aceleração…. Mas isso também não importa…99% nem faz ideia do que isso é ou
para que serve…. Modernices.
“Posto
Policial”? – Claro que está lá e funciona dentro do possível. Apesar de mais se
parecer com a guarde de um depósito de sucata, e central de distribuição de
fardas, merece uma nota muito positiva, pois naquelas condições só mesmo por necessidade
ou amor á profissão e á farda se consegue manter a funcionar.
“Patrulhas
motorizadas e apeadas”? – Todas nos seus postos, e só de dia. A fazer o quê?
Isso é que já é outra conversa. Regular o trânsito, fazer-se obedecer, prevenir
contravenções, e outras coisas do género… é que é mais complicado… mas vai-se
trabalhando para a água açucarada e carbo-gaseificada, principalmente se
através do pára-brisas se vislumbra algo claro ou feminino ou aparentemente
apetecível… nunca falha.
Mas
isto de dizer mal, pode ser um vício… também onde já se viu uma via dita
expresso para andar bem, com “passeadeiras” (felizmente só na zona de Benfica),
paragens de táxi onde calha e camiões a circular pela esquerda em marcha lenta,
ultrapassagens por onde há espaço (confirma-se o postulado científico da
natureza ter horror ao vazio - e estes condutores são realmente uma força da
natureza).
E por tocar nas passeadeiras (sim que
o pessoal aqui não atravessa…. Passeia). Como se não bastasse o stress da condução caótica, numa via
complicada, ainda há o trauma da fauna que por lá circula e cruza. Se por um
lado há que louvar o espírito e coragem dos que são forçados a cruzar esta via
para o outro lado (esqueceram-se de projectar passagens superiores para peões…)
para conseguir um transporte ou simplesmente chegar a casa, numa estrada onde
ninguém se respeita e circula com velocidades elevadas, e manobras que não
lembra a ninguém, por outro lado surgem dois novos espécimes.
Os “gatos” já eram velhos conhecidos
da estrada da Samba, aqui também os há. Quem não conhece a forma dos gatos
atravessarem a rua? Ficam abrigados atrás de um qualquer obstáculo na berma da
via (caixote, viatura, poste, o que estiver a jeito…) e quando os faróis da
viatura a circular (normalmente a cima de 50 Km/h) iluminam a faixa á sua
frente desatam a correr para o outro lado… muitas vezes não chegam lá…
Agora descobri os “Gazelas”. Graciosos,
juntam-se em pares, grupos, bandos, manadas… observam o movimento, e num ápice
de coragem disparam para o outro lado só parando contra o rail, batendo ou
pulando, e respirando ofegantes no separador central, concentrando-se para mais
uma etapa. Gabo-lhes a coragem e determinação, mas não deixam de me surpreender
sempre e assustar com a imprevisibilidade.
Já os Gnus (ou Boi Cavalo) deixam-me
mais preocupado e alerta… aparentemente actuam como as Gazelas… mas a meio da
faixam hesitam, param, olham para os veículos que se aproximam velozes e
decidem continuar em passeio… alguns têm “azar”…mas a culpa é sempre da
macumba, feitiço, mau-olhado, sempre do outro… nunca destes infelizes… e o que
me preocupa, é que ao contrário do que se passa no “Serengueti” ou no
“Massai-Mara” (Viva o National Geographic!), estes não se diferenciam a olho
nu… nem de lupa… não está fácil!
Para me ajudar a estudar esta via e também
para ter um pretexto para estar bastante atento nestas primeiras viagens
elaborei uma pequena estatística, que me deu dados curiosos…
Com uma média de cerca de 1,20h por
cada percurso totalizei quase 70h de viagens num mês, em mais de 3.800 km, tendo
a viagem mais demorada durado quase 2h. Mas que me permitiu concluir que a
saída de “casa” tem de ser entre as 06,00h e as 06,15h, sendo que depois desta
hora quaisquer 5 minutos extra podem significar entre meia hora a uma hora
extra, só para chegar a Benfica, que ir para a “Cidade”…. Nem pensar! Já o
regresso tem de ser feito entre as 16,30h e as 16,45h. Chegar ao Cacuaco depois
do pôr-do-sol é roleta russa com os gatos e demais fauna, multiplicando o stress por muitos dígitos.
Considerando a “óptima” qualidade de
veículos a circular, tentei esquecer que há ciclomotores, motos, motociclos e
camiões a circular e só me concentrei nos chamados ligeiros. Custa confirmar a
já sabida degradação do parque automóvel em circulação, mas isso são contas de
outro rosário, mesmo assim mais uma vez esqueci veículos esgalhados com para
brisas partidos, sem espelhos, amassados, etc., etc., e fiquei-me somente pelos
“Fumarolas” (e mesmo assim os que iam a subir, ou em manobra não contaram).
Sendo considerado “fumarola”, aquele que em deslocação normal queima pior que a
“chama da Sacor”, levei em média com 6 por viagem para um total de cerca de 300
no período….E a maior parte dos dias tive de andar de janelas abertas por não
ter ar condicionado no carro…. Os Pneumologistas agradecem…
Claro que as condições do parque auto
e das vias em muito contribuíram para os que ficam na berma, ou mesmo na via.
Mais uma vez os que não estavam assinalados com os famosos “triângulos”
(triângulo, pneu, monte de pedras, ramos de árvore, bidão, pedaço de carro ou
rail, etc.) e que depois lá fica quando o veiculo se vai embora…), com a capota
aberta ou em mudança de pneu não contaram (podiam simplesmente estar estacionados,
ou “a mudar a água às azeitonas”). Ainda assim na berma ficaram mais de 400
avariados, com média de 8 por viagem, e para ajudar ao “slalom” em média havia
2 avariados na via devidamente “assinalados” para os quase 50 do mês… Loucura
instalada…
Nem por isso, que esse capítulo cabe
aos acidentes, (despistes, colisões, capotamentos…) em média 1 por dia já na berma
e outro na via…totalizando 32 na berma e 24 em plena faixa de rodagem… e isto
só nas faixas da direcção em que circulava, que o que se passava na outra direcção
era mera curiosidade…
Por fim a contagem mais mórbida destas
viagens. Mais de 40 animais atropelados, em média quase 2 por viagem…
maioritariamente cães… sem comentário.
Para concluir um mês de observações e
á margem das duas pedradas que tenho nos vidros, de ter levado com uma peça que
se soltou do camião á minha frente, de ter presenciado 4 atropelamentos, um dos
quais mortal, 7 acidentes graves na outra faixa, contornar um pneu mesmo no
meio da via, todo o cansaço e stress é de menor importância… para quem não tem
de o fazer diariamente.
Que Deus nos ajude e guarde!
Mulemba, 23 de Abril de 2014
Amigo - isso é o fim do mundo, bem aplicada a expressão "que Deus nos guarde".
ResponderEliminarFico triste, que tenhas que enfrentar diariamente tamanho pesadelo - é um stress enorme, que dá cabo da cabeça até ao tipo mais "paxá".
Faz-me pensar também na construção desenfreada, sem estudo de impacto ambiental, tanto para o homem como para os animais. É muito mau - cada vez mais invadimos espaço que não deveria nunca ser nosso sem medir as consequências do acto.
Tenho muita pena que tenhas que viver com tantas dificuldades.
Beijinhos, que o teu regresso seja para breve.